A Blackmagic Design, guardadas as proporções, está fazendo uma revolução muito semelhante à que a Apple operou na computação de uso pessoal, e Grant Petty, fundador e CEO da Blackmagic Design, aos poucos vai se consagrando como uma espécie de “Steve Jobs” do vídeo digital.

Como a Apple nos seus bons tempos, a Blackmagic é visionária, e vem criando ferramentas que, quando são lançadas, causam assombro, furor e admiração, desconfiança e incredulidade.

Essas ferramentas se caracterizam por serem ao mesmo tempo de altíssima qualidade técnica e incrivelmente acessíveis, desconstruindo de uma vez por todas a idéia de que equipamentos e programas para produção de cinema e video profissional precisam ser caros e para poucos.

É o “fogo do Zeus” digital sendo corajosamente entregue aos simples mortais, free lancers, pequenos produtores, artistas e profissionais criativos de diversas áreas, para que eles possam inventar seus próprios filmes e obras audiovisuais de forma independente.

Felizes são os que participam dessa ceia e vivenciam esse momento, porque nem sempre foi assim.

No tempo do analógico e da fita

Quem tem um pouco mais de estrada na profissão lembra de como era o mercado de equipamentos de produção e pós-produção audiovisual até os anos 1980. Quase que totalmente dominado pela Sony, Panasonic, JVC,  e outros gigantes japoneses da eletrônica, a evolução tecnológica ocorria em ritmo cadenciado, de modo perfeitamente controlado. Por eles.

De tempos em tempos, lançava-se um novo formato de vídeo ou suporte um pouco mais avançado, e os parques de equipamentos mundo afora eram renovados. Dentro de uma mesma onda de tecnologia, havia degraus de qualidade demarcando os nichos de usuários, dividido em pelo menos três mercados: doméstico, industrial e profissional .

Cada nicho deveria se manter em faixas de preço pré-definidas e referendadas por todos os concorrentes, praticamente configurando um tipo de cartel de eletrônicos. Cada modelo de equipamento de cada nicho, em ciclos mais ou menos regulares, era substituído pelos fabricantes por outro com pequenas melhorias implementadas a conta-gotas, mas as faixas de preço permaneciam, com margens de lucro possivelmente sempre maiores.

De vez em quando vinha mais uma onda de novos formatos e as mudanças eram mais radicais. Mas, uma vez mais, os nichos e faixas de preço pouco se modificavam. A diferença de preço de um nicho para outro era enorme, sendo que os equipamentos ditos de uso profissional atingiam facilmente somas estratosféricas.

Nessa época, fazer algo considerado profissional por conta própria, por pequenas produtoras ou criativos empreendedores, era improvável, quando não impossível. Só as grandes produtoras podiam possuir estrutura própria. Para ter acesso a equipamentos broadcast ou com qualidade cinematográfica, era necessário ter um bom dinheiro reservado para alugar material das empresas locadoras e períodos de trabalho nas post-houses.

Audiovisual profissional era coisa para poucos, bem poucos, que manejavam altas somas na produção desse tipo de conteúdo.

Eis que o digital surge

Essa lógica perdurou intacta até a chegada da tecnologia do vídeo digital, que acabou mudando o jogo completamente. Para nossa sorte, a nosso favor, a favor dos artistas e criativos empreendedores.

O primeiro ruído veio com o formato DV em meados dos anos 1990. Modelos de camera tidos como industriais ou semi-profissionais como a camcorder Sony VX-1000 e a Canon XL1 passaram a ser usados para produzir programas de TV com “qualidade broadcast”.

Tudo era feito à revelia dos planos dos fabricantes e dos grandes exibidores. Filmava-se em DV e entregava-se o programa para as emissoras em fita Betacam analógica. Os técnicos e engenheiros de TV não percebiam a diferença, e o programa ia para o ar.

Essas mesmas cameras, também foram usadas na realização de filmes de longa-metragem independentes super bem sucedidos, como os primeiros filmes do Dogma 95, movimento de cinema criado pelos diretores dinamarqueses Lars Von Trier e Thomas Vinterberg. Os filmes do grupo eram feitos em vídeo DV e eram transferidos para película depois da edição.

Logo adiante, as coisas melhoram mais com o formato HDV, a versão de alta-definição do DV para os nichos semi-profissionais, que permitiu novos avanços dos produtores independentes e do cinema de guerrilha, graças ao incremento no nível de qualidade de imagem das realizações.

A ruptura da edição não-linear

A edição não-linear de vídeo digital por computador foi outro baque forte. De repente, no início da década de 1990, as caríssimas ilhas de edição por fita e as moviolas começaram a perder sentido, razão de existir, tudo por causas das diabruras de uma nova e petulante empresa chamada Avid. Foi realmente duro para os fabricantes japoneses. A Sony foi quem mais sentiu. Mas não houve jeito. A transição já tinha começado.

Em 1997, o stand da Avid na NAB, tendo o sistema de edição Media Composer como carro-chefe, pela primeira vez, desbancou o da Sony, tradicionalmente, o maior da feira.

Depois vieram os novos computadores iMac e Mac Pro com porta Firewire, rodando nativamente a edição em tempo real de material DV com o programa Final Cut Pro original. E pra completar, a AJA e a Blackmagic passaram a fornecer placas de vídeo para captura, saída e processamento de audio e vídeo para funcionar com o Final Cut Pro, inclusive com formatos de vídeo mais robustos . Pronto, a partir daí foi uma festa.

Filmava-se em HDV, editava-se num Mac Pro com monitoração através de uma placa de vídeo da Blackmagic ou da Aja, com qualidade profissional em alta-definição. Muitos profissionais de edição passaram a ter a sua própria ilha em casa ou em salas particulares, pegando trabalhos para fazer no equipamento próprio. Inúmeras pequenas produtoras também se aparelharam fortemente, aumentando sua participação no mercado de criação de conteúdo audiovisual para TV e cinema.

O fim da fita e as cameras HDSLR

Mas o golpe de misericórdia na antiga ordem das coisas veio com o fim da fita de vídeo e o surgimento das cameras HDSLR. O armazenamento em mídia de estado sólido decretou, de uma só vez, o fim de toda a parafernália mecânica das camcorders e os tapedecks.

E as cameras HDSLR, meio sem querer, escancararam o óbvio: a tecnologia de vídeo digital estava pronta para ser apropriada de uma maneira completamente diferente, muito mais democrática, e não se justificava mais existirem aquelas barreiras econômicas entre os nichos de mercado estratificados e estabelecidos pelo consorcio de japoneses da indústria eletrônica.

O curioso é que o uso das cameras HDSLR como dispositivos profissionais de captação de cinema digital não foi intencional. Só que a qualidade era muito boa e, novamente, os artistas digitais se aproveitaram das brechas tecnológicas – nesse caso abertas pela Canon.

A camera EOS 5D Mark II, lançada em 2008 por pouco mais de US3.000, introduziu a gravação de vídeo digital Full HD em cameras de fotografia como um recurso documental a mais para o fotógrafo de still, mas agradou mesmo foi ao pessoal de cinema, que soube se apoderar-se do sensor “full frame” e das incríveis lentes de fotografia, para produzir imagens perfeitamente cinemáticas, a ponto de rivalizar com a película cinematográfica.

Era o sonho tornado realidade. Produzir filmes com qualidade de cinema com seu próprio equipamento, comprado com uns poucos milhares de dólares.

Por sinal, simultaneamente, a morte da película que já se desenhava, ganhou o impulso definitivo com o desenvolvimento das cameras de cinema digital de alta performance como a Arri Alexa e as cameras da RED. Até na exibição, a película caminhava para a extinção substituída por projetores ultra-modernos de vídeo digital, forçando a interrupção da sua produção e a decadência de fabricantes como a outrora poderosa Kodak.

Olhando em perspectiva, com os olhos de hoje, o surgimento da 5D Mark II talvez possa ser comparado ao surgimento do Macintosh, novamente, guardadas as proporções, claro. Nada seria mais como antes depois dela, um perfeito ícone de tecnologia disruptiva. Se a Canon soubesse no que ia dar, talvez tivesse feito diferente porque as HDSLR praticamente canibalizaram o mercado de camcorders, do qual se beneficiava, junto com a Sony, Panasonic, JVC, etc.

Enquanto isso, a Blackmagic…

A Blackmagic não parou nas placas de vídeo. Suas linhas de produtos foram crescendo para oferecer conversores, distribuidores, switchers, dispositivos de armazenamento, entre outros. Ela adquiriu empresas e produtos estratégicos. Entre as que mais impressionou foi a aquisição da DaVinci Systems, reconhecida como a desenvolvedora das mais importantes ferramentas digitais de marcação de luz para cinema.

O DaVinci Resolve, antes caríssimo e restrito a post-houses, de uma hora para outra, passava a custar poucos milhares de dólares. Não durou muito, passou a ser vendido por US$1.000 na versão full, e gratuito numa versão praticamente integral, com restrições para resoluções acima de Full HD e alguns recursos mais sofisticados.

Mesmo os famosos consoles de operação do DaVinci Resolve caíram absurdamente de preço, e não exigem exclusividade para o uso do programa. Consoles alternativos e de boa qualidade, bem mais baratos, podem ser utilizados livremente.

Com o barateamento do DaVinci Resolve, a finalização de vídeo digital de alto nível deixava de ser tabu e coisa de produções endinheiradas.

Até que chegaram as câmeras

Quando todo mundo pensava que da cartola de Grant Petty não sairia mais nenhum coelho novo, eis que o mago apresenta, a partir de 2012, nada menos que cinco linhas de cameras de cinema e TV digital com qualidade de imagem comparável à das melhores câmeras do mercado e preços assustadoramente menores do que os da concorrência.

O fenômeno se repetiu. Muitos viram os produtos com descrédito, mas o fato é que as cameras, depois de uma fase inicial de ajustes, se provaram estupendas e representam, atualmente, o melhor custo/benefício do mercado e a cada dia ganham mais adeptos, mesmo entre os profissionais acostumados a trabalhar com equipamentos top.

Não satisfeitos com os lançamentos nos preços iniciais, a Blackmagic, de lá pra cá, ainda tem encontrado fôlego para reduções ainda maiores de preços das câmeras, culminando com a promoção temporária anunciada agora de oferta do modelo Pocket Cinema Camera pela metade do seu custo normal, saindo por US$500 para o comprador final.

A magia da Blackmagic

O que está por trás de tudo isso, da filosofia e das estratégias da Blackmagic?

A primeira vez que escutei falar da Blackmagic, foi no início dos anos 2000. A empresa fornecia drivers de software para as placas de captura e saída da AJA, que custavam a partir de US$3.500, funcionarem com o Final Cut Pro. Só depois ela começou a fabricar e vender suas próprias placas com os drivers “da casa” com o preço de menos de US$1.000, abrindo espaço para a enorme linha de produtos que veio mais tarde.

Então, simbólica e historicamente, o DNA da Blackmagic é saber fazer muito bem o software que faz o hardware funcionar. Esse é o truque da Blackmagic. O hardware deles, apesar de avançado, é quase sempre básico e essencial, barateado por acordos cuidadosa e estrategicamente costurados com parceiros fornecedores de componentes eletrônicos, que  estão aí no mercado, e que ela sabe juntar como ninguém. Por exemplo, como na escolha de fornecedores de sensores de equipamentos científicos para suas câmeras.

E talvez seja aí que resida o fator de identidade revolucionária fundamental da Blackmagic com a Apple: ser uma empresa de software que ganha dinheiro vendendo hardware.

Só que, no caso da contribuição da Blackmagic, essa ênfase no software promove um deslocamento brutal de paradigma tecnológico para a industria de equipamentos para produção e pós-produção audiovisual. A Blackmagic não aposta na multiplicação interminável de linhas de equipamento constantemente substituídas para renovar receitas e lucratividade, como faz a Sony, por exemplo, cujo “calcanhar de Aquiles”, curiosamente, sempre foi o software.

Em vez de lançar equipamentos novos que matam as linhas de modelos anteriores e fazer os usuários comprarem novos modelos, os equipamentos da Blackmagic formam pequenas famílias de produtos com ciclos de vida mais longos, de 3 a 5 anos, constantemente renovados por drivers de software unificados. Com as placas sempre foi assim e tudo indica que as cameras estão ido pelo mesmo caminho. Sua lucratividade vem da política de preços ultra-agressiva para ganhar na economia de escala, popularizando os produtos e aumentando o tempo todo a sua base de usuários.

Nesse sentido, é possível fazer um paralelo da Blackmagic com os desenvolvedores do Magic Lantern, que fuçam as cameras HDSLR da Canon, e escancaram a verdade: o hardware não precisa mudar tanto e tão rapidamente nos dias de hoje. Em boa parte das vezes, é o software por traz dele que é o motor dos avanços de funcionalidade e performance.

O hardware só muda toda hora porque é assim que os fabricantes da antiga entendem que se deve ganhar dinheiro, pela sua obsolescência relativamente rápida e programada, induzindo o usuário a estar sempre trocando um equipamento por outro, e pagando caro por qualidade profissional. Mas esse modelo está caducando e a Blackmagic está provando isso. E, como muitos fabricantes tradicionais estão descobrindo, pode ser perigoso insistir nele.

No fim das contas

A audiovisual é a linguagem do novo milênio, e precisa das ferramentas certas para cumprir o seu papel. E a Blackmagic é uma das principais empresas, senão a principal, que estão empenhadas em projetarem-nas e construí-las. Em grande parte, por causa dela, a democratização da produção profissional de audiovisual está atingindo patamares nunca antes imaginados.

Sua atuação já está forçando reações extremadas dos gigantes japoneses, estupefatos com a audácia da outrora pequena empresa australiana. A Sony, a Panasonic, a Canon, a JVC, estão tendo que se mexer e repensar estratégias. As quedas de preço de camcorders, promoções, e lançamentos de cameras HDSLR com melhor relação custo-benefício que temos visto nos últimos tempos são a confirmação e as evidências disso.

Por tudo isso, pela importância radical dos produtos inventados pela empresa de Grant Petty e o seu impacto no mercado, já dá pra dizer que a história da indústria de equipamentos de vídeo digital começa a se dividir entre antes e depois da Blackmagic. Assim como a história da computação se dividiu entre antes e depois da Apple. Vida longa à Blackmagic e seu CEO visionário.

(post publicado originalmente no blog VideoGuru em 22 de julho de 2014)

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *