Que tal ter uma espécie de aula magna sobre cinema, edição e documentário com Walter Murch, o autor de Num Piscar de Olhos? Pois é do que você vai poder desfrutar nesse post.

Mesmo lamentando o fato de não haver tradução para português, achamos que seria valioso publicar esse material no VideoGuru. Ele vem de uma participação de Murch no festival Sheffield Doc/Fest na sua edição de 2013, antes da exibição do filme mais recente que acaba de editar, o documentário Particle Fever.

Apesar de o video ter sido gravado há alguns meses, só agora recentemente ele teve sua divulgação aberta na web pela organização do festival.

A conversa com Murch é daquelas que a gente não cansa de ouvir. A primeira parte é como uma palestra, e depois ele passa a responder perguntas feitas pelo anfitrião do evento e pela platéia.

Na primeira parte, Walter discorre sobre como vê a evolução do cinema, fala ascensão do documentário como forma de expressão contemporânea, e teoriza sobre dois conceitos sensacionais cunhados por ele mesmo, a “caixa-preta” (uma metáfora do cinema perfeito e controlado) e o “floco de neve” (a espontaneidade  criativa). Explica detalhes de seu método e de como ele faz para lidar com as “toneladas virtuais” de material com que é obrigado a trabalhar na edição de filmes, desde Apocalypse Now ao Particle Fever. Mais adiante, já na parte das perguntas, fala sobre como chegou ao insight da teoria do “piscar de olhos” para entender a edição, e muito mais.

Tem gente que, quando fala esbanja conhecimento, enquanto tem outras pessoas que esbanjam sabedoria. Walter Murch faz as duas coisas quando fala. A cada frase, nos faz pensar com um viés mais filosófico sobre os assuntos. Às vezes, cita outro sábio, como Vitor Fleming, que cunhou essa pérola:

“Uma boa montagem faz um filme parecer bem dirigido. Uma excepcional montagem faz o filme parecer que não foi sequer dirigido.”

Em outro momento, suas idéias transbordam em reflexões riquíssimas, sempre com toques de sutileza, e um fina capa de ironia e humor sutil:

” Você começa cada projeto com 10.000 perguntas e uma certeza. Você está fadado a ter perguntas, mas se você não tiver nenhuma certeza ao ir de encontro a ele, você se perde. Até o final do projeto, você acaba ele com 10.000 certezas, então todos os particulares foram concretizados, mas você acaba também ficando com uma pergunta, e a pergunta é o presente que você dá para o público no final do filme, algo que eles tem que completar por si.

O retrocesso é que você não pode saber qual é ssa pergunta com antecedência. Na verdade, você, como cineasta, tem que estar desesperado para responder a todas as perguntas sabendo, inevitavelmente, que uma dessas coisas, seja o que vai ser, vai escorrer através de seus dedos e recair no lapso da platéia. Porque sem essa pergunta, o filme está correndo o perigo de se tornar hermeticamente fechado e não estar disponível para transpirar com o mundo ao seu redor.

Há cineastas que lutam por isso e realmente alcançam, mas há o perigo de que seu filme torne-se esse tipo de porcelana perfeita que se pode admirar e olhar, mas de alguma forma, não há que uma conexão pessoal viva. O filme não precisa de você, é perfeito em si mesmo, e esta questão é a coisa que faz o ‘Eu preciso de você, o público, para me ajudar, e ao filme, a responder esta pergunta’. É uma espécie de um cordão umbilical que liga o público com o filme.”

Se você domina suficientemente o inglês, não pode deixar de assistir o vídeo abaixo. Tem quase 1 hora e meia no total, portanto, reserve um tempo para ver com calma e concentrado. Valerá cada minuto empenhado.

 

(post publicado originalmente no blog VideoGuru em 11 de março de 2014)

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